Faça

Grite o mais alto que puder
enquanto tiver voz
enquanto estiver de pé

Cante o mais alto que puder
enquanto tiver voz
enquanto houver fé

Pule o mais alto que puder
enquanto tiver espaço
enquanto não doer o pé

Olhe o mais alto que puder
enquanto tiver olhos
enquanto a mim tiver

Ame o mais alto que puder
enquanto tiver amor
mesmo se a mim não tiver

[Bruno Soares]

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Teoria e prática

Jane Hawking (Felicity Jones) e Stephen Hawking (Eddie Redmayne) em uma das melhores cenas do filme.
Jane Hawking (Felicity Jones) e Stephen Hawking (Eddie Redmayne) em uma das melhores cenas do filme.

A ‘Teoria de Tudo’, cinebiografia do cientista Stephen Hawking, não tem as respostas para todas as nossas perguntas. Pelo contrário. O filme nos deixa com ainda mais interrogações sobre tudo. Sobre o mundo. Sobre nós mesmos e nossos sentimentos.

De onde viemos, o que estamos fazendo aqui e para onde vamos. Parece-me improvável que qualquer pessoa do universo possa responder, categoricamente, a todas essas perguntas. Duvidar? Acreditar? Ou simplesmente não se importar…

Na vida de uma maneira geral, as perguntas são mais interessantes que as respostas. Elas são um eterno ciclo de busca pelas afirmações. E isso move o mundo. O próprio futuro é uma interrogação. Deixa o suspense no ar. Dá um frio na barriga, deixa as pernas bambas e o coração acelerado. Mais parece os sintomas de quem está apaixonado. Não se sabe nem o que tem lá esperando. Pra quê saber, agora, o que ele reserva? Deixa vir!

O passado – devidamente respondido ou não – é melhor deixar pra trás caso não traga boas recordações. O presente? É melhor vivê-lo! Com interrogações. Com ou sem exclamações. Vamos viver! Aproveitar a saúde, a disposição, os recursos, as belezas, as provações divinas, o universo, as limitações, as esperanças, a inteligência, a chance que nos foi dada de ter uma vida…

Um dos melhores textos do filme é dito pelo próprio Hawking, interpretado brilhantemente por Eddie Redmayne, está quase no final. Foi em uma das centenas de palestras que Stephen já deu mundo afora.

“É claro que somos apenas primatas evoluídos vivendo em um planeta pequeno que orbita uma estrela comum, localizada no subúrbio de uma de bilhões de galáxias. Mas, desde o começo da civilização, as pessoas tentam entender a ordem fundamental do mundo. Deve haver algo muito especial sobre os limites do universo. E o que pode ser mais especial do que não haver limites?”, questiona.

“Não deve haver limites para o esforço humano. Somos todos diferentes. Por pior do que a vida possa parecer, sempre há algo que podemos fazer em que podemos obter sucesso. Enquanto houver vida, haverá esperança”, finaliza.

Mais comentários são dispensáveis…

O Natal é como um algodão-doce…

Algodão que nos foi presenteado.
Algodão-doce que nos foi presenteado.

O Natal é como um algodão doce: atrai os olhares, tem sabor e formato diferentes, é colorido, as crianças adoram, desperta sorrisos… Mas, assim como tudo na vida, há quem goste e quem não goste. É preciso entender e saber respeitar. Eu nunca gostei. Comi quando era pequeno. Sabe como é, criança come de tudo.

O “verdadeiro sentido” da data – como os que gostam da mesma têm mania de mencionar – não é colocado em prática, talvez por falta de conhecimento do significado ou outras razões, como a falta de vontade, o egoísmo, o comodismo etc.

A história conta que o Natal é comemorado antes mesmo do nascimento de Jesus Cristo e foi anexado pelo Cristianismo como se fosse uma coisa sua. Portanto, a ideia de que a data significa, pura e unicamente, o filho de Deus cai por terra. Trata-se de uma convenção social e religiosa. Não quero entrar em polêmicas com os fiéis. Que fique bem claro. Trata-se apenas de uma visão racional da coisa.

Minha visão política de esquerda poderia me dar argumentos suficientes para expor os males que o capitalismo vem aprontando com a data, seja inventando um tal de Papai Noel ou colocando na cabeça das pessoas de que um shopping lotado é sinal de espírito natalino. Também não quero entrar nesse mérito.

“Natal é amor”, disse uma amiga. Pois bem. Amor por quem? Pelo quê? Para quê? Quando? Onde? Como? Ao longo do ano, quais foram suas atitudes de amor? Quem você procurou para oferecer um ombro amigo? A quem dedicou alguns minutos de atenção? Procurou o outro para se divertir, interagir, se socializar ou só quando precisou de um favor? E aquele homem morando na rua, ele merece amor? Aquela criança da favela também? O pedinte na entrada do banco teve seu olhar de compaixão ou repulsa?

Atitudes simples e cotidianas podem fazer a diferença na vida de cada um. Solidariedade, voluntariado, filantropia podem e devem ser feitos todos os dias e não apenas no dia 24 de dezembro de cada ano.

Já deixei claro para alguns que não gosto da data por uma série de motivos: tenho saudade da minha avó que nos deixou há 20 anos e de outros parentes, lamento a ostentação que fazem dos banquetes exagerados enquanto muitos passam fome, a influência mercadológica para a compra desenfreada de presentes, os votos de ‘Feliz Natal’ nada sinceros, a falsidade e a desvirtuação que fazem do “Natal é amor”.

Por diversos anos seguidos, não sai de casa na véspera do feriado. Ficava em casa sozinho assistindo televisão, lendo ou fazendo alguma outra coisa enquanto meus pais e familiares saiam ou se reuniam em algum lar.

Eu não gostava de sair à rua e ver famílias grandes juntas se acabando de comer, todos bem arrumados, perfumados, casas bem decoradas, enquanto na mesma rua há diversos exemplos a lamentar: uma criancinha que nunca recebeu a visita do ‘bom’ velhinho, um pai que se degrada na bebida para esquecer aquela noite, uma mãe que não tem nada na geladeira para fazer uma janta.

Não gostaria de dizer exatamente o pouco do que pude fazer pelos outros na noite de ontem, 24, assim como já fiz no passado e costumo fazer no dia-a-dia. Minha intenção não é me colocar num altar e receber o título de santo do ano. Jamais. A ideia é influenciar as pessoas a fazerem o mínimo que seja para ganhar o sorriso de quem precisa.

Convidei Lisandra, minha noiva, a sair de casa (coisa bastante difícil pra mim em noite de Natal), comprar alguns cachorros-quentes (quem não gosta?) e distribuí-los àqueles que estavam na rua, esperando alguma ajuda para silenciar a fome que gritavam em suas barrigas.

Compramos 10 e saímos pelas ruas do Centro de Mossoró em busca dessas pessoas. O primeiro que achamos foi perto do Museu Municipal. “Boa noite, amigo. Quer um cachorro quente?”, perguntei. “Quero sim. Estou com fome”, disse ele dando a primeira abocanhada. “Muito obrigado. Feliz Natal pra você”, completou o homem que continuou sua caminhada mastigando.

Dois foram deixados ao lado de dois homens que dormiam nos bancos ali bem próximo. Preferimos não acordá-los. Talvez o sono seja o melhor remédio para esquecer a vida que se vive.

Em outro local, dois homens não se incomodaram ao serem acordados com a buzina do carro. O agradecimento sincero deles foi a maior recompensa. No local, faltava uma mulher. “Ela me abandonou, senhor. Saiu por aí. Não sei nem pra onde foi. Mas eu sou um cachorro. Gosto demais daquela danada. Tomara que ela volte logo. Saiu faz é tempo”, disse um dos homens rindo com a boca melada de maionese e catchup, enquanto nos despedíamos.

Ao lado da Cobal, um homem se desvencilhou do papelão que o envolvia para se sentar, receber o cachorro-quente e agradecer pelo alimento.

Não estava fácil encontrar a quem mais ajudar. Rodamos várias e várias ruas e avenidas da área central da cidade sem obter êxito. Não havia ninguém. Ficamos até felizes por um momento, pois era sinal de que eles estavam em algum lugar que não fosse em calçadas e bancos de praças.

“Muito obrigado”, “Deus abençoe você e sua família” e “Feliz Natal” foram as respostas que mais ouvimos em todo aquele percurso de quase uma hora.

Passava da meia noite quando avistamos um senhor carregando uma ‘penca’ de algodão-doce. As vendas não tinham sido boas. Algumas moedas, do pequeno apurado, tilintavam em seu bolso. Estava voltando para casa com quase toda a mercadoria.

Não titubeou ao ser perguntado se queria comer alguma coisa. Disse-nos que tinha duas crianças – um menino e uma menina – em casa. Demos mais dois cachorros-quentes, os últimos, para ele levar para os pequenos.

Ali, bem ao lado do Parque da Criança, ele nos ofereceu um dos seus produtos. De primeira negamos por não gostar (Lisandra também não é fã) e por pensar que aquele algodão-doce a menos poderia fazer falta no outro dia, ser R$ 1 ou R$ 2 a menos no bolso no dia seguinte.

Diante da insistência, resolvemos aceitar. O homem agradeceu mais uma vez e desejou votos de saúde e felicidade na família. Retribuímos a gentileza.

Seguimos para casa com aquele algodão-doce que, assim como o Natal, não gosto, mas que existe, é colorido, atrai os olhares, as crianças adoram e que, no fim das contas, nos foi dado por alguém…

Igreja de São Bruno

Há cerca de 10 anos a igreja era minha segunda casa. Dos sete dias da semana, em pelo menos cinco, eu estava dentro dela, seja ensaiando para tocar na missa, assistindo celebrações, adoração ao santíssimo sacramento, fazendo shows com a banda JC (Juventude Cristã) e por aí vai. Entre umas e outras reuniões, aqui e ali, Seu Francisco, meu vizinho, nos recebeu em sua casa para discutir algumas coisas relacionadas à Capela de São Pedro, no bairro Abolição 4, Mossoró-RN.

A pretensão daquele senhor de mãos calejadas de tanto trabalhar na construção civil como pedreiro era um dia construir uma igreja nas proximidades de casa. Disse ele apontando um terreno baldio que ficava ao lado da sua residência:

“A igreja tem que continuar crescendo, se fortalecendo. Quem sabe um dia a gente não possa ter mais uma aqui nas redondezas. Coisa simples mesmo, construída com a ajuda de um de outro. Devagarzinho. A gente podia escolher um santo para homenagear e dar o nome a essa igreja. Que tal São Bruno?”, disse ele tocando meu ombro e rindo.

Eu e os demais caímos na risada. Nunca tive a pretensão de ser santo. Era só um exemplo, claro. Mas havia outros nomes mais populares e de santo naquela roda de conversa. Talvez se ele tivesse dito “Santo Antonio” ou “São Francisco” ia fazer sentido pra mim, já que são meus dois primeiros nomes antes de Bruno Soares Batista.

Passada uma década vejo que aquele desejo antigo de Seu Francisco caminha para ser realizado em breve. Naquele terreno está sendo construído um espaço para receber aqueles que têm fé, que procuram Deus através da religião, que encontram naquele ambiente uma esperança, uma paz, uma união com os seus iguais.

A construção, ainda em fase intermediária, mostra que a igrejinha pequena, simples, levantada aos poucos, ficou apenas na cabeça daquele senhor. É bem mais do que ele pensou.

O prédio começa numa rua e termina em outra. Não se sabe onde é a entrada. A altura é equivalente a um edifício de três ou quatro andares. As janelas são grandes, bonitas, imponentes. Outros detalhes embelezam o lugar. Bom gosto define. A arquitetura caprichou.

Mas há um problema. E Seu Francisco sabe disso. Talvez nem considere um problema, mas é bem diferente do que um dia ele sonhou.

Não é mais uma igreja católica de um santo qualquer. “É a dos Mormóns”, disse uma vizinha. Ela se referia à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.